Juno, Ou O Hype, Os Anos 90, Tarantino E As Meias Coloridas


Nos anos 90, quando o movimento grunge gritava mais alto do que qualquer coisa, uma nova geração de jovens surgia rapidamente. Esses foram chamados de Geração X. Eram pessoas, nos seus vinte e muitos / trinta anos que começavam a se questionar sobre tudo o que estava a sua volta. Jovens nascidos nas décadas de 60 e 70, que presenciavam o fim de vários paradigmas acietos como "padrão" anteriormente. Tanto em termos político como culturais era uma geração que se via perdida. Sem saber para onde o mundo ia. E principalmente, para onde suas vidas iam. As mães começaram a sair de casa para ir trabalhar e construir uma carreira, suas famílias desabavam com a disseminação dos divórcios, o conceito do controle de natalidade (onde você tomava um comprimido para evitar de ter "problemas"), enfim, tudo isso fez uma confusão na cabeça ds jovens. Para que estar vivo? Por que eu nasci?
Como bem sabemos, o surgimeno de padrões na sociedade vão sendo refletidos mais diretamente nas artes e o cinema estava tão presente enquanto meio de massificação de ideais quanto a confusão na cabeça dos quase-adultos. A imagem do "jovem" vai mudando, então no final da década de 80 nas telas de cinema pelo mundo afora. Fugindo daquela imagem "besta" do adolescente inocente que só quer perder a virgindade (de filmes como a série Porkys ou os filmes de John Hughes), começam a surgir o jovem que "tem algo a dizer". E vira uma profusão dos filmes da dita Geração X. Pessoas perdidas entre a adolescência a idade adulta. E sem a menor vontade de se achar.
No meio disso tudo, filmes como Reality Bites, Sleep With Me, Singles surgem como hinos dessa geração que tem muito a discutir e pouco a enxergar no futuro. O pano de fundo para tudo isso são os anos 90, que realmente acontecia lá fora. Com o grunge, as camisas de flanela, as meias coloridas, a cena clubber, as cores fortes e luminosas, a depressão, anti-depressivos. E uma figura surge e revoluciona a forma que conhecemos de fazer cinema no meio disso tudo. Ele se chama Quentin Tarantino.
Tarantino tinha uma língua afiada e uma facilidade grande para conceber diálogos impressionantes e utilizar-se do conceito de memorabilia como ninguém jamais conseguiu fazer. Ícones do passado vão virando ídolos do presente (como o restaurante cheio de referências ao passado rocker de Pulp Fiction, a conversa sobre Like a Virgin de Madonna no início de Reservoir Dogs, entre tantos outros). Os filmes acabam sendo baseados quase que exclusivamente num roteiro esperto. Cheio de trocadilhos e frases engraçadas. Cheio de personagens espertos. Tanto quanto irreais. Quase um desejo dessa geração perdida. E o roteiro e os diálogos passam a ganhar importância maior do que qualquer coisa.
Sabemos que as revoluções vão criando monstros a medida que o tempo vai passando. A fórmula vai ficando velha e desgastada e a repetição vai se tornando inevitável. O próprio Tarantino caiu na sua própria armadilha, virando prisioneiro da sua genialidade (veja Jackie Brown e o mais recente Death Proof, nada além de tentativas de repetir uma fórmula já explorada).
E é aqui que entra esse dito hype em volta do filme Juno, que eu fui ver esse feriado. Juno parte do pressuposto de que vamos logo voltar a beber na fonte dos anos 90 e tenta se adiantar a isso tudo. E nada melhor do que usar a fórmula que já funcionou algum dia para tentar reavivar um gênero esquecido.
Mas o diretor Jason Reitman esqueceu uma coisa: a Geração X não faz mais sentido nos anos 2000. Se nos anos 90 os "jovens" não sabiam o que queriam, isso não se aplica mais em 2008. Todo adolescente sabe muito bem o que quer da vida. Somos forçados a saber o que queremos ainda muito novos. A sensação de insegurança e incerteza vai cada vez menos fazendo sentido nos anos 2000. O acesso a todo tipo de infromação já é uma realidade. O mundo já é "globalizado". A família já não existe mais. E ninguém mais sofre com isso. Essa não é mais uma angústia.
E pensando nisso tudo, Juno é um filme que não faz mais sentido em pleno 2008. Não faz mais sentido uma jovem menina de 16 anos, que está grávida do menino nerd de sua escola, questionar o aborto e decidir ter o filho em um momento altruísta, doando-o para um casal que não pode ter filhos. Não faz sentido uma adolescente que é tão esperta e tem a língua tão afiada em uma situação dessas. Tudo parece forçado. Desde o figurino impecável (super anos 90) até a direção de arte muito colorida, cheia de auto-referências (como o tal telefone em forma de hambúrguer, que toda a divulgação do filme está tentando dizer para a gente que é legal ter um desses), tudo está no filme a serviço de um roteiro engracadinho. Um roteiro tão esperto quanto irreal. Um roteiro que gostaria de ser um Tarantino.
Tudo isso me lembra série de TV Gilmore Girls, onde mãe e filha são tão rápidas e inteligentes que sempre têm a resposta certa para todas as piadas. Na verdade o roteiro é tão esperto que fica claro que não aquelas pessoas não poderiam estar vivendo no mesmo mundo que a gente. Não traz realidade nenhuma. Estamos falando sim de um roteirista, imitando o estilo de fazer filmes dos anos 90, que teve tempo para pensar em todos esses trocadilhos incríveis que são metralhados da boca de seus protagonistas. Tão rápido quanto cheio de gírias americanóides.
Juno sofre do mesmo mal. A menina Juno (interpretada por Ellen Page, para mim, uma canastrona com letra maíuscula) dispara gírias, piadinhas espertas e se vê acima de tudo o que o roteirista designa para o seu destino. É quase como se ela fosse tão legal que não precisasse estar passando por todas aquelas situaçõs. Ora, se ela é tão superior a tudo isso, por que eu preciso perder o meu tempo e ver a vida colorida e cheia de auto-referências dela?
Eu respondo: para nada. Pois trata-se de um filme absolutamente irreal. Um meio de mostrar o quanto um roteiro pode ser recheado de expressões e diálogos espertinhos e cheio de referências aos anos 90 (Sonic Youth, Alice In Chains, as meias coloridas incríveis que ela usa na hora do seu parto e que, convenientemente, são mostradas em bastante destaque). Um roteiro que aparece mais do que qualquer coisa.
A geração X, assim como os filmes essencialmente de roteiro, não faz mais sentido hoje em dia. Sair de casa para ver um filme como Juno não faz o menor sentido. Vale mais a penas locar os filmes de Tarantino ou os genuínos filmes da década de 90, e se deliciar com uma forma original e nova de se fazer cinema. Ou ver como o roteiro pode estar a serviço de uma história, como Onde Os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen. Isso sim é uma revolução. Juno é apenas um amontoado de referências retrô para um público metido a hype. Juno não tem nada de novo, trata-se apenas de uma imitação ingênua de uma revolução que não mais é necessária hoje em dia.

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